DO RELIGIOSO AO SOCIAL: A IGREJA NAS COLÔNIAS ITALIANAS

Rovílio Costa

 

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A grande imigração italiana agrícola que começou no Rio Grande do Sul em 1875, com as três primeiras colônias imperiais: Campo dos Bugres, atual Caxias do Sul; Dona Isabel, atual Bento Gonçalves; Conde d'Eu, atual Garibáldi, seguindo-se Silveira Martins, em 1877, como quarta colônia imperial, contou, inicialmente, com escasso clero italiano voluntário, que acompanhou os imigrantes e com presenças esporádicas de sacerdotes italianos que já marcavam presença no Estado, desde 1861, a convite de Dom Sebastião Dias Laranjeira, que então assumia a Igreja do Rio Grande do Sul.

A vinda de religiosos palotinos alemães em Vale Vêneto, em 1888, na quarta colônia; de capuchinhos franceses em Garibáldi, em 1896, e de carlistas italianos, também em 1896, em Encantado e Alfredo Chaves, no atual município de Nova Bassano e, posteriormente, de outras congregações, foi propiciando um atendimento religioso sistemático, como presença de sacerdotes e como organização crescente de comunidades.

A visão teológica e pastoral dos sacerdotes, italianos ou não, que atenderam as colônias italianas nas primeiras décadas, até a normalização do atendimento com padres residentes, que já está suficientemente garantido no do presente século, dá-nos o perfil de igreja que vai se estruturando.

Inicialmente jesuítas alemães de São Leopoldo perambulavam as três colônias do nordeste do Estado, dando atendimento religioso. Memórias, registros, escritos, correspondências, especialmente de sacerdotes que foram decisivos na organização religiosa das comunidades de imigração italiana agrícola, atestam a evolução teológica e pastoral, especialmente a organização de capelas com o objetivo de ligar cada imigrante a uma comunidade, garantindo, através dos encontros dominicais, o cultivo da fé, mesmo sem a presença regular de sacerdotes.

Capitéis e capelas materializaram uma forma própria de organização religiosa, de responsabilidade comunitária, não só em relação à religião, mas também à educação e à solução de problemas sociais. Uma figura de solução de problemas comunitários, eleita pelos imigrantes, com o mesmo espírito da organização da capela, é a cooperativa, sistema que fluiu nas colônias de forma genérica. Pode-se, já, antever uma religiosidade baseada no social, ficando em segundo plano o cultivo de iniciativas de espiritualidade pessoal, reflexiva e contemplativa. Reunião diária em família para a reza do terço e reunião dominical em residência adequada, em capitel, ou em capela estruturam uma religiosidade que se subordina a práticas sociais e religiosas regulares, ficando o cultivo pessoal restrito à freqüência sacramental, especialmente à desobriga pascal.

Embora residências, travessões, estradas foram acontecendo a partir de conjugação de esforços, de mutirões, a capela acontecia depois de uma certa organização comunitária assegurada. As capelas, no começo, eram espaços essencialmente religiosos. Mas, com o tempo, pela falta de recursos e meios, e pela necessidade de escolas para alfabetizar os filhos, e com a anuência dos sacerdotes, as capelas emprestavam seu espaço à sala de aula. Logo que as possibilidades econômicas apareceram, surge o salão da capela que passa a liberar o espaço da capela, assumindo este o espaço de escola, bodega e lugar para encontro e festas. A capela passa a ser lugar para catequese, encont5ros dominicais e culto por ocasião da visita de sacerdotes.

A ascensão econômica dos imigrantes foi juntando na única associação que é a capela toda a expressão comunitária, expressa em festas, recreação, lazer, catequese e educação. Com o tempo separam-se os espaços: capela, salão e escola, cada um com suas atribuições. A capela passa a ser aberta em ho~´arios de rezas e cultos e vai perdendo a anterior aglutinação da inteira população, porque vai se fortalecendo sempre mais o salão, como lugar de lazer, recreação e festa da comunidade e, com o tempo, de moradores de outras comunidades e das sedes.

Hoje a capela perdeu não somente sua autonomia sobre o salão, como também perdeu sua autoridade moral de condicionar os demais horários de atividades aos seus, porque os salões funcionam como bodegas ou quase armazens de fins de semana e, mesmo nos horários de culto de preces comunitárias, tendem a estar abertos, porque não servem apenas àquela comunidade. O fluxo de pessoas de outras localidades constrange fabriqueiros e sócios a manter suas bodegas abertas em horários comuns de oração, induzindo a pessoas da própria comunidade a também se alienarem da participação, antes tida como sagrada e intocável.

Pertencer ou não pertencer à capela indicava o católico praticante ou não, mesmo que alguns não se filiassem às sociedades de capelas por falta de recursos, mas participavam igualmente de todos os atos religiosos que se realizavam nas mesmas.

A capela nasceu, de fato, como lugar de encontro para rezas comunitárias e celebrações religiosas, como cerimônias fúnebres, missas de desobrigas, reza do terço, catequese das crianças para a primeira comunhão e crisma especialmente, recordando-se que houve uma presença efetiva de catequistas domiciliares, seja antes da organização das capelas, seja depois.

O Estatuto das Capelas evidenciará a finalidade da capela no sentido de promover a comunidade religiosa, não podendo haver atividades paralelas que viessem perturbar suas atividades e objetivos. Por exemplo, em dia de festa da capela, nenhum sócio poderia fazer festa paralela, nem mesmo comemoração familiar, prejudicando o acesso de pessoas à missa, encontro ou festa. Aliás, ainda hoje, em geral, os sócios de uma capela têm o compromisso tácito de não abrir bodega que possa prejudicar a da capela, que se destina às finalidades comunitárias da mesma.

As sociedades de capelas foram se modificando não quanto à estrutura, mas quanto à força do controle social, havendo maior autonomia e independência pessoal dos integrantes da sociedade, perdendo sempre mais força a indicação de ser ou não ser praticante, participante efetivo ou não. Os conteúdos pastorais não parecem ter atendido a esta nova realidade da população alvo, razão porque a queixa geral é que, hoje, as sociedades de capelas se tornaram mais sociedades com fins sociais, recreativos, culturais (perdendo também a manutenção de escolas para o Estado ou Município), do que sociedades definidamente religiosas como o foram primeiras décadas.

As paróquias, também, surgiram no modelo das capelas, com fábrica, sócios, mas a autonomia da população alvo foi mais rápida que nas capelas isentando-se do controle inicial mais rígido como o das comunidades de capelas. Assim, a secularização da população paroquial foi mais evidente junto às sedes paroquiais onde floria a vida urbana, também porque contava, entre sua população, com a presenças de maçons, carbonários e de outras religiões, o que dificilmente se constatava nas sociedades de capelas. Em geral, os não participantes na organização de capelas assim procediam por motivos econômicos e não por rejeição à proposta religiosa.

A grande contribuição das comunidades de imigrantes italianos, nas colônias, é a de se terem organizado praticamente desde a chegada dos imigrantes, possibilitando logo um relacionamento direto do imigrante com a igreja institucional, com a ortodoxia religiosa, com os sacerdotes, o que não acontecia, de modo geral, com as populações já estabelecidas, a não ser as alemãs, que, por sua divisão entre evangélicos e católicos, aprimoraram também a organização em comunidades.

A igreja se organiza no modelo como se organiza o imigrante

Giovanni Battista Scalabrini (1979, p. 45), bispo de Piacenza, ao fundar sua Congregação, em 1886, tinha como grande objetivo acompanhar o grande êxodo de italianos. Depois de visitar, pela primeira vez, as 364 paróquias de sua diocese, em 1878, constatou que eram 28.000 os emigrados para as Américas, com esta afirmativa: "Ou emigrar ou roubar." Depois de visitar cinco vezes suas paróquias, de deter-se nos portos de embarque, o bispo concluiu que se fazia necessário fundar uma sociedade de sacerdotes e leigos para seguir os imigrantes italianos, porque estes, em toda a Europa, eram os párias dos imigrantes.

Nesta afirmativa percebemos que a preocupação do bispo, tornada realidade a partir de 1896, entre nós, quando enviava seus religiosos, bem como a dos sacerdotes que desde 1875 seguiam os imigrantes, era primeiramente a preocupação de soerguê-los da depressão causada pela miséria, que poderia ser minorada pelo trabalho, pelas organizações comunitárias e, sobretudo, pela prática religiosa.

Francesconi (em Bortolazzo, 1995, p. 471-6) cita trechos de cartas do Brasil que o pároco de Quero, no vale de Piave, em Trento, lia ao jovem Pe. Pietro Colbachini, futuro missionário no Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul, onde fica evidente a situação de miséria dos emigrados italianos e as razões porque sua situação material foi a grande e a primeira preocupação dos sacerdotes que os acompanharam:

"Não deis importância às cartas que alguém escreve; crede, estamos desesperados e em grande parte aqui se morre de paixão e de fome.

"Estou aqui na cruz; sedento, faminto e traído. De cem, estamos reduzidos a quarenta. Umas perderam o marido, uns a esposa e outros os filhos. Conta-se aqui que alguém do Tirol, pela fome, comeu um filho. E quem nos protege? Ninguém nos protege; não temos nem pretores, nem polícias. Os senhores da Itália nos tratavam mal, mas na Itália era melhor!

"Aqui estamos como os animais, sem padres e nem médicos. Os mortos não são sepultados: estamos pior do que os cães amarrados à corrente. Dizei aos patrões que estaria mais feliz na Itália, na pocilga deles, do que num palácio real na América".

"Diziam-nos que aqui tinha nascido e vivido Jesus Cristo, que teria todos os dons dos reis magos; no entanto caímos mesmo num inferno".

A ação da Igreja, através de seus padres, também desprotegidos, torna-se o único elo de união de forças entre os colonos, o sinal da esperança material e espiritual, os padres se tornam líderes acreditados de todos, capazes de diluir distâncias e provincianismos peculiares aos italianos, e de agregar comunidades e grupos em torno de uma estrada a abrir, de uma ponte a construir, de uma capela ou de uma escola a edificar.

E as comunidades, assim organizadas, tornavam-se o espaço de diálogo entre os poucos padres que as perambulavam e os próprios colonos. As capelas eram vistas, também, como possíveis núcleos de futuro progresso, seja pelos artesãos, como pelos comerciantes que seguiam o caminho das organizações religiosas para realizar seus intentos, misturando, muitas vezes, objetivos religiosos com interesses próprios.

A iluminação para a afirmativa da vantagem de comunidades organizadas para a realização de objetivos pastorais, olhando as comunidades, que se organizavam nas colônias italianas, como sistemático modo de relacionamento com a igreja instituição e com o padre, buscamos nos escritos do Padre Wunibaldo Backes (1992, p. 11-14), pároco em Santo Antônio da Patrulha, de 1932-1954, que faz uma radiografia histórica clara da situação da sua paróquia no, mostrando que os problemas pastorais eram de duas ordens:

1. a interna (intra-eclesial), pela falta de competência moral de sacerdotes;

2. a externa, pela impossibilidade de um relacionamento pastoral continuado com o povo, pela falta de comunidades religiosas organizadas, que fossem ponte de entre igreja e povo.

Pe. Wunibaldo aponta, também, como fatores dessa situação as distâncias, a diluição populacional, a precariedade ou inexistência de estradas (p. 10), não contando com rádios, jornais, automóveis, tendo sido ele o primeiro a comprar um jeep para a paróquia e a adquirir o primeiro aparelho receptor de rádio do município, junto ao qual as autoridades e amigos se reuniam, na canônica, para ouvir notícias.

Ademais, por ser Santo Antônio da Patrulha um dos quatro primeiros municípios do Estado, tendo iniciado o povoamento da Sede em 1725, tornando-se Capela Curada pelo edital de 31.8.1760, e Freguesia pela provisão eclesiástica de 8-10-1763, poderia apresentar uma realidade de organização eclesiástica das mais bem estruturadas (Fortes, 1963, p. 370). São os grupos imigratórios que possibilitam um atendimento pastoral organizado e continuado, o que nas comunidades italianas de todas as colônias já era uma experiência consagrada. Eis o que se refere:

"Quanto à religião, com exceção dos núcleos de colonização italiana e polonesa, os quais tinham comunidades organizadas e praticavam a religião, o restante se contentava com uma religiosidade folclórica. Apesar disto e da formação religiosa deficiente, além das superstições comuns ao povo simples e inculto, não existiam, em toda a paróquia, grupos organizados de outras seitas religiosas" (Backes, 1992, p. 11).

A freqüência religiosa também estava mais relacionada aos núcleos coloniais que à região do campo. "A freqüência à Missa aos domingos era regular, mas constituída quase exclusivamente de crianças, moças e mulheres, com uma média de 10 comunhões. Dos homens, somente um, de origem italiana e chefe da estação de correios e telégrafos, confessava e comungava mensalmente e outras cinco ou seis pessoas faziam sua páscoa anual".

"No interior, encontrei uma capela, na encosta da serra, e mais treze atrás da serra, nos diversos núcleos coloniais, onde a prática da religião era regular. Já na região do campo não havia vestígios de comunidades e, com exceção de um lugar, Tapumes, nenhuma prática da religião encontrei. Não obstante, o povo era naturalmente religioso, muito respeitador do padre e sequioso da verdade" (Backes, 1992, p. 11).

Os motivos da situação religiosa, nessa paróquia e município de fricção entre a cultura luso-brasileira e a cultura agrícola européia, são em parte iguais e em parte diferentes dos constatados nas colônias italianas do nordeste do Estado.

"O motivo desta situação foi o abandono em que ficou este povo por muitos anos, não tanto por falta de padres, mas pela situação irregular dos que por lá passaram. Em fins do século passado, lá foi o pároco o Pe. João de Oliveira Lima, o qual deixou numerosa descendência e manteve-se no cargo por longos 40 anos, contra a vontade do bispo e amparado pela autoridade imperial, mediante a lei do padroado. Outro sacerdote foi um tal Pe. Antonio Monaco, embora moralmente correto, ocupava-se mais com a política do que com a formação religiosa dos fiéis, granjeando muitos desafetos" (Backes, 1992, p. 11), que esteve em Santo Antônio da Patrulha de 1896-1900, provavelmente oriundo da província de Salerno e ex-franciscano (Rubert, 1977, p. 36).

"Em 1915 era vigário um tal de Pe. Mathias Vignola, que somente celebrava a Missa aos domingos. Fora da Missa, andava de traje civil, mantinha uma farmácia. Depois das reuniões de batizados no interior, promovia bailes em que dançava e no carnaval da Sede puxava seu cordão carnavalesco. Demitido e suspenso pelo arcebispo e substituído pelo Pe. Pedro Wagner, ficou ainda um ano na paróquia, promovendo, por conta própria, reuniões de batizados no interior, em concorrência com o vigário" (Backes, 1992, p. 11).

"Somente daquela data em diante, os padres Pedro Wagner, Antônio Reis, Alberto Kolling, Isidoro Reske, Mons. Antônio Peres e Pe. Antônio Dutra realizaram um trabalho construtivo, começando aos poucos a restabelecer o respeito à dignidade sacerdotal e elevar o nível religioso" (Backes, 1992, p. 11).

O problema interno da igreja nas colônias italianas, embora por pouco tempo, por motivo de sacerdotes pouco competentes no exercício de sua missão pastoral, fez-se presente logo no início das mesmas. É o caso do Pe. Antônio Passaggi, nomeado capelão da colônia Caxias pelo Governo em 6.2.1877, cargo que teria exercido por 7 meses com jurisdição, que perdeu devido ao vício da bebida, bem como por implicações dos carbonários que o embebedaram e o induziram a casar dois homens (um vestido de mulher), em uma bodega, em Caxias. Mas continuou bom tempo a celebrar e administrar os sacramentos (Rubert, 1977, p. 53). Os batizados e casamentos que realizou nesta situação constam como batizados ou casamentos celebrados pelo "Pe. suspenso Antônio Passaggi," casamentos e batizados que na sua maioria foram considerados inválidos nos registros eclesiásticos. Casou, entre outros, como consta no 1º Livro de Registro da Colônia Caxias, existente no Cartório de São Sebastião do Caí, Alessandro Gioccari e Anna Marsotti, a 23.10.1878; Domenico D'Ambroz e Teresa Gavioni, a 13.10.1878; Pietro Mari e Maddalena Bertelli, a 16.12.1878 e assim dezenas de outros casamentos e batizados na Colônia Caxias, sempre constando no registro, batizado ou casado perante o Pe. suspenso Antônio Passaggi. Em 1879, Pe. Antônio Passagi consta, nos registros do império, como realizador da maior parte dos batizados e casamentos da colônia. Só para citar alguns, na ordem cronológica, de 1.5.1879 a 31.10.1879, das 31 crianças nascidas: 10 foram batizadas pelo Pe. suspenso, Antônio Passaggi; uma batizada pelo Pe. Bartolomeu Tiecher; 16 "não batizadas por falta de padre"; 3 não batizadas "por estar o Padre da colônia suspenso" (Registros de casamentos, batizados e óbitos de Caxias do Sul e São Sebastião do Caí, na época em foco).

Em 20.3.1880 registra-se o batizado de Giuseppe Oberti, filho de Pietro e Teresa, pelo falso padre Carlos Alberto de Sanctis, que aparece última vez nos registros do Império, em 10.4.1880, quando batizou Margherita Stangherlin, filha de Giovanni e Barbara Araldi. Neste período, nos registros do Império de Caxias do Sul constam 17 nascimentos dos quais 9 foram batizados pelo falso Padre Carlos Alberto de Sanctis; 5 não foram batizados; e 3 foram batizados pelo Pe. Bartolomeo Tiecher.

O Pe. Emiliano d'Amore, ex-palotino, que recebeu uso de ordens em 25.3.1897, natural de Montefalcione, província de Benevento, falecido na Colônia Correcional Daltro Filho, de colapso cardíaco, a 20.9.1942, onde estava internado por se ter pronunciado em favor do Governo da Itália durante a Guerra Mundial, teve contestação por problemas de ordem moral em praticamente todas as paróquias por que passou. Na área onde se encontravam comunidades italianas, atuou em Santo Antônio da Patrulha, como coadjutor (2.11.1912); Boa Vista, como encarregado do futuro curato (18.9.1914); Barra do Ouro, como cura (24.8.1915) para onde voltou a 21.6.1916, depois de um período sem colocação; como cura em Caxias, desde 9.1.1918, sendo suspenso "ex informata conscientia" em 9.1.1919 pelo arcebispo Dom João Becker (Livro das Nomeações dos Sacerdotes, p. 46). Recorde-se ainda o caso de Pe. Antonio Marcellino que ocasionou o fechamento do curato de Caravaggio.

Ainda em Caxias, a pujante obra de Pe. Pietro Nosadini, pároco de 1896-98, foi perturbada pelas implicações de carbonários e maçons, especialmente temerosos da sua indiscutível liderança em toda a região colonial. O próprio padre dizia, em carta ao presidente da província, Dr. Borges de Medeiros, em 15.6.1898:

"Eu vim para o Brasil não para acumular dinheiro, mas para a salvação das almas e a verdade a direi sempre e sem pavor, e sem temer as perseguições que por ventura se me possam mover; pronto mil vezes a dar o sangue e a vida em prol da causa católica, antes de tornar-me vil, para merecer o apoio e os aplausos de qualquer miserável tiranete de aldeia" (Arquivo da Cúria Diocesana de Caxias do Sul).

Neste momento da história da Igreja em Caxias, o que graças a Deus se modificou mais tarde, um pouco por ideologia, um pouco pela personalidade intransigente de Pe. Nosadini, a maçonaria fez de fato hostilidades à igreja (Rubert, 1977; Brandalise, 1985).

Na quarta colônia, as coisas também não foram tranqüilas. O Pe. Vittorio Arnoffi, ex-franciscano, nomeado capelão de Silveira Martins em 3.11.1881, teve morte provocada violentamente, em 25.4.1884, segundo uns por trama da maçonaria (Rubert, 1977), segundo outros, em represália a seu procedimento.

Com a morte do Pe. Vittorio Arnoffi, foi nomeado primeiro pároco de Silveira Martins o Pe. Antônio Sorio que em 31.12.1899 teve morte trágica, quando voltava de uma capela, a cavalo. Também esta morte é enigmática, estando em jogo a maçonaria (Rubert, 1977, p. 68) e acusações desabonadoras ao padre. A interrogação sobre as acusações se deve sobretudo ao fato de o Pe. Antônio Sorio ter sido nomeado pároco de Silveira Martins com jurisdição sobre Vale Vêneto, que perdia, assim, a residência do sacerdote. Interpretação nesta linha se confirma pelas correspondências de 10.11.1884, de José Júlio de Albuquerque Barros, do palácio do Governo em Porto Alegre, recomendando ao chefe de polícia providências com relação ao fechamento da igreja de Vale Vêneto por moradores; carta de 5.9.1884, assinada pelos fabriqueiros e moradores de Vale Vêneto, declarando inicialmente:

"I sottoscritti appartenenti a questa cappella dichiarano di non voler fare alcuno pagamento obbligatorio a qualsiasi sacerdote qualora non abbia la sua stabile dimora in questa località".

Pela carta do Pe. Antônio Sorio, de 15.9.1884, ao bispo da diocese, bem se percebe que interesses escusos estavam presentes nas hostilidades à sua ação pastoral, como afirma, a certa altura:

"Ontem, depois de celebrar a missa na matriz desta freguesia, dirigi-me para aquele referido lugar, Vale Vêneto, a fim de ali dizer missa hoje. Ali chegando, encontrei a capela cheia de gente e o negociante Paolo Bortoluzzi (o mesmo que motivara o abaixo-assinado dos colonos, na carta anterior) junto ao altar fazendo uma prédica. Exortando ele ao povo para que de nenhum modo me reconhecessem como vigário daquele lugar, não devendo ninguém, em caso nenhum, reclamar os meus serviços, pois só por esse modo se poderia obter um padre para residir aqui."

Estranho zelo do Sr. Bortoluzzi, fechar a igreja e impedir a ação do padre! Não será que com a ausência do padre residente, sem a missa diária, não estaria em jogo o desfalque do comércio pela não aglomeração de fiéis? (Cartas que se encontram no Arquivo da Cúria, em Porto Alegre).

Percorrendo a documentação existente no Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, não se encontra uma insinuação sequer contra os procedimentos morais dos padres Vittorio Arnoffi e Antônio Sorio, que segundo alguns teriam provocado suas mortes. Seguramente, a reação contra o comportamento moral dos mesmos seria maior do que a provocada pela mudança de residência deste último. Acusar-se-á, então, a maçonaria? Por que não considerar a reação de comerciantes que queriam sacerdotes e igreja a serviço de seus interesses?!

Os primeiros momentos da organização pastoral nas colônias italianas sofreu um pouco com certa incompetência ministerial, que, à medida da organização da igreja, foi perdendo influência, e a colônia italiana em geral realizou sua caminhada sob a liderança dinâmica e esclarecida da igreja.

"O catolicismo do italiano era diferente do praticado pelo brasileiro. O catolicismo do brasileiro era basicamente leigo e não exigia primeiramente a presença do sacerdote. Sua estrutura básica consistia em irmandades, ordens terceiras, procissões, romarias e festas barulhentas com bandas e foguetes. O sacerdote se tornava necessário e imprescindível apenas para os batizados e casamentos que tinham efeito civil. Tratava-se de um catolicismo mais de exterioridades ruidosas, e menos de sacramentos.

"Ao passo que o italiano tinha a prática de sua religião baseada na missa, na confissão e na comunhão. O conceito de religião vinha inseparavelmente ligado ao templo e ao sacerdote. Onde houvesse sacerdote e igreja, o italiano era praticante. E onde não houvesse sacerdote e igreja, ele acabava, normalmente, esquecendo seus deveres para com Deus e sua vida cristã definhava, caindo quase sempre na indiferença religiosa.

"O clero brasileiro tradicional, além de ser escasso, não se interessava muito desse catolicismo fundamentalmente sacramental. Para preservar o espírito e a prática religiosa entre os italianos estabelecidos na América era necessário que fossem tomadas medidas especiais.

"Tanto a hierarquia brasileira como a italiana passaram a se preocupar com o destino religioso dos colonos vindos da Itália. Diversos sacerdotes italianos, especialmente das regiões de onde provinham os imigrantes, deixavam suas paróquias e dioceses e se dirigiam para o Brasil em busca dos conterrâneos espalhados pelas diversas colônias. Segundo acusações feitas e muitas delas comprovadas, muitos desses padres adaptaram-se logo ao sistema clerical brasileiro, passaram a se interessar quase exclusivamente pelo dinheiro.

"O Episcopado brasileiro preocupou-se com a situação do imigrante italiano. Muitas dioceses tinham recebido padres vindos da Itália com o objetivo de atender espiritualmente os imigrantes. Mas nem todos os bispos do Brasil estavam contentes com a situação e procedimento de grande parte desses sacerdotes. O bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, era um deles.

"Dom Antônio de Macedo Costa, recém promovido a arcebispo de Salvador, ao assumir a liderança do episcopado brasileiro, após a separação da Igreja do Estado na República, preparou, em 1890, um texto preliminar para as discussões dos prelados por ocasião da Assembléia Episcopal convocada para o mês de agosto daquele ano a se realizar em São Paulo. O bispo brasileiro sugeriu diversas medidas no sentido de atender espiritualmente os italianos e solucionar o problema dos padres que vinham em socorro do imigrante. Segundo ele, a solução estaria na fundação de uma casa religiosa central de missões nos principais estados onde houvessem grandes núcleos coloniais. Cada casa teria cerca de dez missionários, os quais viveriam em comunidade (Altoé, 1988, p. 10-12).

Carta de Leão XIII aos arcebispos e bispos da América, em 10.12.1888

Nesta carta, o papa lamenta que as levas de imigrantes para a América, especialmente os italianos, em busca de subsistência, não tenham perto de si um ministro que lhes dê o necessário conforto espiritual. "Não sem mágoa profunda, Leão XIII foi informado que alguns sacerdotes da Itália, principalmente meridional, emigrados para as regiões americanas, levam uma vida que se afasta de todo da integridade de costumes e santidade que um homem de igreja deve manifestar. Para impedir a dilatação de tanto mal, incumbiu a Sagrada Congregação do Concílio, depois de ouvido seu parecer, de enviar aos bispos da Itália e da América, as seguintes prescrições (Rabuske, 1977, p. 36):

"1º Quanto aos sacerdotes italianos emigrados, que se detêm na América, procedam os bispos locais contra os delinqüentes de modo sumário, segundo as formas dos sagrados cânones, e também, se necessário for, como delegados da Sé Apostólica.

"2º Quanto ao futuro, contudo, proíbe-se absolutamente aos bispos da Itália concederam a seus presbíteros do clero secular letras discensoriais para emigrarem para regiões da América.

"3º Poderá apenas admitir-se uma exceção, com ônus para a consciência do bispo, para algum sacerdote seu diocesano de idade madura, dono de suficiente ciência sagrada e portador de inteira causa justa de emigração. Tenha ele, porém, um bom atestado de vida intemerata, exercida até o presente no sagrado ministério, com louvor de verdadeiro espírito eclesiástico e zelo da salvação das almas. Dê, por isso, sólida esperança de que haverá de edificar com a sua palavra e o seu exemplo o povo fiel para quem tem desejo de passar-se. E dê ainda a certeza moral de que nunca haverá de manchar a dignidade sacerdotal pelo exercício de artes vulgares e de negociações.

"4º Neste caso, porém, o próprio bispo italiano, depois de tudo haver devidamente pesado e achado em ordem, deverá tratar, de modo direto, sem intervenção do sacerdote postulante, com o ordinário americano a formal aceitação, bem como ainda, conseguida a promessa de se lhe dar um cargo no ministério eclesiástico, terá que informar de tudo e de todos os pormenores à sobredita Sagrada Congregação do Concílio. E se esta, finalmente, der o seu consenso, então poderá o bispo conceder as letras discensoriais, comunicando, em carta secreta, ao antístite americano, caso não lhe forem já conhecidas as características pessoais do sacerdote que vai emigrar, para se impedirem, assim, as eventuais fraudes concernentes à identidade do candidato. Na América não poderá o mesmo sacerdote passar de uma diocese para outra sem que para isso tenha nova licença da Sagrada Congregação" (Appendix ad Concilium Plenarium Americae Latinae, em Rabuske, 1978, p. 36-37).

A atenção que o Romano Pontífice dedicava à América é a Carta Apostólica "Cum Diuturnum", de 25.12.1898, convocando uma assembléia de todos os bispos da América Latina, que se realizou em Roma, a partir de 28.5 a 11.6.1899, com a participação de 53 prelados.

A Pastoral Coletiva, em relação aos padres estrangeiros, lembra o nº 547 do Concílio Plenário Latino-Americano, assim adaptado e redigido nº 1365:

"Os sacerdotes estrangeiros recém-chegados, que trouxerem todos os seus documentos em regra, não serão admitidos sem prévio exame de missa e breviário e, para exercerem o ministério de confessores, serão submetidos a exame de moral, dogma e de língua portuguesa" (Rabuske, 1978, p. 38).

A Pastoral Coletiva (n. 1366-7), aponta diretamente para os documentos da Santa Sé:

"Queremos que em todas as nossas dioceses se observem pontualmente as instruções da Sagrada Congregação do Concílio de 27.7.1890 e de 14.11.1903, modificadas pelo Decreto da Sagrada Congregação Consistorial de 25.3.1914, que determina o seguinte:

"1º A nenhum sacerdote é permitido emigrar para a América ou Ilhas Filipinas, para sempre ou por longo tempo, sem que tenha um bom atestado de vida intemerata, exercida até o presente no sagrado ministério, com louvor do espírito eclesiástico e zelo da salvação das almas; de sólida esperança de que há de edificar com seu exemplo e palavra os fiéis dos lugares por onde passar e haja certeza moral de que não há de manchar a dignidade sacerdotal.

"2º Aqueles que tiverem o bom atestado supra poderão tratar com o bispo do lugar para onde desejarem ir, e pedir que os receba em sua diocese; não poderão, porém, emigrar antes de obterem do bispo promessa de que os há de receber e dar algum ofício eclesiástico, alcançarem de seu próprio bispo letras comendatícias e discensoriais, em forma específica de acordo com as prescrições seguintes:

"3º O bispo americano ou filipino não receba, nem prometa receber nenhum sacerdote sem que antes, trocadas cartas reservadas com o bispo do mesmo, diretamente, saiba que é com certeza sacerdote digno, como se disse acima.

"O bispo do sacerdote emigrante não lhe passe discensoriais, sem verificar o seguinte: 1) que ele pertence à sua diocese por algum título canônico; 2) que, com razão, lhe possa dar boa recomendação; 3) que tenha do bispo americano ou filipino documento escrito, prometendo recebê-lo ou dar-lhe colocação."

(O texto continua repetindo as normas de Leão XIII, seguindo-se normas igualmente rígidas para aqueles que emigrarem por pouco tempo, conforme se expressa o n. 1367 da Pastoral Coletiva).

A situação de gravidade em relação ao clero que emigrava para a América Latina e as Filipinas bem se reflete nas medidas acima, originárias da Sé Apostólica (Rabuske, 1978, p. 35-41).

No Rio Grande do Sul, tal situação, presente mais no início da colonização italiana, foi minorada pela presença dos religiosos jesuítas que perambulavam as colônias, informavam o bispo, e pela decidida atuação de Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, preocupado com a formação do clero, trazendo, por isso, congregações religiosas diretamente destinadas às colônias italianas.

Relatório do Pe. Ambrósio Schupp

O relatório do Pe. Ambrósio Schupp, jesuíta,.Die Deutsche Jesuiten-Mission in Rio Grande do Sul, em grande parte inédito, que se encontra traduzido no que se refere à situação do clero no Rio Grande do Sul, em Os inícios da colônia italiana do Rio Grande do Sul em escritos de jesuítas alemães (1977), de Arthur Rabuske, dá uma radiografia precisa do clero italiano do Rio Grande do Sul. Depois de acenar para a chegada a Porto Alegre de jesuítas espanhóis, em fins de 1843, com intuito de fundar uma escola de ensino secundário e um seminário para a formação do clero, aponta como principal razão da situação decadente do clero no Brasil a hostilidade de Pombal à Igreja Católica. O atendimento aos índios, a fundação de um colégio, a criação de um seminário não deram em nada, especialmente devido ao espírito maçônico da Câmara Provincial que não tolerava a vizinhança dos jesuítas.

Sacerdotes formados na cidade episcopal do Rio de Janeiro eram insuficientes para atendimento espiritual do povo. Em seu lugar vieram padres do estrangeiro, que assim os descreve:

"Sabemos que espécie de gente eles foram na sua maioria. Alguns deles eram bons, devem mesmo ter vindo para cá animados de boas intenções e teriam continuado bons em circunstâncias favoráveis. Mas, sendo eles transferidos a lugares afastados em que, longe dos olhares solícitos de seus supremos pastores e impedidos do convívio de virtuosos irmãos no sacerdócio, se encontravam entregues de todo a si mesmos, num meio em que nada havia para os influenciar de modo enobrecedor, e tudo puxava para baixo. Assim, humanamente falando, era-lhes como que impossível conservar-se à altura de sua missão sacerdotal. Dado, porém, o primeiro passo em falso, todo o resto sem dificuldade podia prever-se.

"Outros padres vindos de fora assinalavam-se de tal maneira por suas limitações culturais, ignorância e falta de formação, que provocavam do povo a compaixão, quando não a ironia e malícia, expondo o estado clerical à maledicência do ridículo. É óbvio que de tais padres não se houvesse de esperar uma ação positiva, no sentido de favorecer a verdadeira vida religiosa.

"Nem mesmo assim eram esses os piores. Houve os que, através de qualquer deslize, tinham tornado impossível a sua permanência em casa ou vieram para o Brasil com o simples fito de ganhar dinheiro.

"É doloroso dizer, mas, ao final de contas, deve-se dizer ao menos uma vez o quanto esses infelizes se afastaram de sua missão sacerdotal e em quanto se resume o mal que acarretaram ao povo.

"Não poucos sacerdotes houve que se meteram tanto em negócios mundanos ou manipulações escusas, que não se importavam em ostensivamente mostrá-los a tal ponto, que nada mais se tenha podido reconhecer de seu caráter sacerdotal."

Descreve que se encontrou nas colônias com um padre carroceiro, um tropeiro, um bodegueiro, um que passeava de carro leve com a doméstica e os que nem a missa dominical celebravam, alegando que não haveria participantes.

"Outros padres apareceram aqui pobres como mendigos e voltaram à sua pátria como ricos senhores!...

"O abuso na cobrança das taxas era tal que, em valendo o matrimônio religioso também para o civil, e exigindo-se a confissão dos noivos, havia os que não queriam se sujeitar a esta prática e pagavam taxa para se eximir da confissão obrigatória."

Mas, esta poderia ser apenas a visão do Pe. Schupp. No entretanto ele também cita desabafos de Dom Sebastião:

"Dom Sebastião contou-nos que um deles tinha uma biblioteca de livros maus e os distribuía no meio de seus paroquianos. O bispo que os descobriu numa de suas visitas pastorais, ordenou que 50 volumes fossem queimados.

"Chegou-se tão longe que famílias honestas considerassem uma desonra o fato de um sacerdote passar a soleira de sua casa. Vinham mesmo a tais extremos que proibissem a entrada em seu lar de um ou outro desses sacerdotes, até durante a luz do dia.

"Não queremos falar aqui dos monstros que, de vez em quando, apontavam no seio das colônias italianas e polonesas, ou de sacerdotes que, com ou sem jurisdição do bispo, batizavam, assistiam casamentos religiosos, diziam missa, administravam os demais sacramentos. Numa palavra, desempenhavam todas as ações próprias do ministério sacerdotal e pastoral, entregando-se, de permeio, ao vício da bebida e de outras paixões gerais, bem como levando, por fim, o povo transviado, embora de passagem, até o próprio cisma.

"Serão algo mais de 30 anos, quando o bispo Dom Sebastião, externando suas mágoas, observou:

"Se eu tivesse que suspender dos meus 100 padres, todos os indígnos, só restariam 10 e destes 10 eu não teria a certeza de que mais algum também não merecesse a suspensão. Quão desolador ser bispo em tais condições" (Rabuske, 1978, p. 43-50).

Esta é a situação encontrada por Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, em 1890, ao subir ao trono episcopal em Porto Alegre, propondo-se logo aprimorar o seminário e dar à sua diocese um competente clero.

Propostas pastorais às colônias italianas

O período que vai de 1875, início da grande imigração agrícola e formação das colônias imperiais, até 27.7.1890, com a publicação das instruções da Sagrada Congregação do Concílio aos bispos da Itália e América, sobre os sacerdotes italianos que emigravam para as regiões americanas, período que coincide, para o Rio Grande do Sul, com a posse de Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, decididamente voltado à formação do clero, pode ser considerado um período em que a Igreja se debateu internamente para salvaguardar a unidade e a ortodoxia, como bem ressalta o cônego Wunibaldo Backes (1992) ao analisar a paróquia de Santo Antônio da Patrulha, no momento em que assume como pároco, em 1932.

Deste período, e dos subseqüentes, podemos tirar elementos, primeiramente menos e, depois, mais explícitos que apontem para o tipo de pastoral ou os objetivos de evangelização que vinham se esboçando nas colônias italianas. E o fazemos através da documentação existente, especialmente partindo de personagens que nos pareceram significativos por sua atuação mais extensiva em tempo ou em território das colônias italianas.

Pe. Eugênio Steinhart, jesuíta, de 1880-1896 foi pároco de Estrela, período no qual atendeu, embora a existência de outros sacerdotes na região, às colônias de Encantado, Roca Sales, Garibáldi e Bento Gonçalves. O Pe. Ambrósio Schupp, ao elaborar o texto Missão dos Jesuítas Alemães no Rio Grande do Sul, em 1910, dirigiu ao Pe. Inácio pedido de informações sobre as colônias italianas e ele respondeu com um relatório de quatro páginas, onde estão algumas orientações que ele costumava deixar nas comunidades italianas, bem como relata que o bispo havia colocado nessas colônias padres com jurisdição ampla, atendendo às direções das colônias, não havendo por isso demarcação de limites paroquiais, senão formais, incluindo-se sob sua jurisdição os territórios de Estrela, Teutônia e Poço das Antas, as colônias Conde d'Eu, Dona Isabel e algumas picadas da Colônia Caxias. Seguramente a decisão do bispo estava ligada às queixas dos colonos que preferiam ser atendidos pelo pároco de Estrela, tendo até ido uma comissão de Bento Gonçalves para falar diretamente ao bispo em Porto Alegre. Conde d'Eu e Dona Isabel tinham então 10.000 e 13.000 almas respectivamente.

Quanto aos padres italianos nessa área, o Pe. Eugênio faz esta análise:

"Em Azevedo Castro, os colonos tiveram a desgraça de cair nas mãos de um sacerdote entregue à bebida, que o chamavam, simplesmente, de Pe. Antônio cachaça. Na Linha Figueira de Melo tinham o surdo Pe. Alberto Biagiotti, com o qual não se podiam entreter".

No lugar reservado para a atual Vila Garibáldi estava o Pe. Domenico Grecca, do qual nada aponta de negativo, mas arremata com uma análise geral da atuação dos padres italianos:

"Restringiam-se, até então, os trabalhos dos padres italianos a batizados, casamentos, exéquias e ofícios de defuntos, pondo-se eles, depois disso, a repousar, assistir a festas de casórios, etc."

Pe. Eugênio dá os primeiros elementos de uma proposta pastoral levada avante com supervisão do pároco, mas sob a responsabilidade das próprias comunidades:

"Manifestei-lhes, que na ausência de sacerdotes, fizessem, aos domingos, e dias santos, uma espécie de culto divino (mais explicitamente cultos leigos, à semelhança das Andachten, ou devoções comunitárias dominicais da colônia alemã). Aquilo devia ser, segundo o costume italiano, com Ladainha de Nossa Senhora, com terço do rosário etc. e breve leitura piedosa. De tarde rezavam-se as vésperas e o ofício dos defuntos. Havia, além disso, e para quem o quisesse, anexas ao resto, preces marianas" (Rabuske, p. 55-58).

Também Pe. Eugênio dá indicações dos conteúdos e objetivos de suas pregações e catequese:

"Vindo eu, perguntava em primeiro lugar pela situação da catequese das crianças e pelas confissões. Em seguida passava a pregar sobre a necessidade de se confessar e receber a santa comunhão. Visto que eu falava apenas imperfeitamente o italiano, tomei as práticas de São Leonardo de Porto Maurício e as Prediche do Pe. Paolo Segneri, assimilando-as em espírito e propondo-as tão bem quanto possível. Na catequese das crianças que eu dava duas vezes ao dia, procurei seguir o catecismo de Roberto Bellarmino" (Rabuske, 1978, p. 57).

O catecismo do Cardeal Bellarmino, Dottrina Cristiana breve e Dicchiarazione piú copiosa della Dottrina Cristiana, são obras que se tornaram clássicas. É deste catecismo que se adaptou, entre nós, o catecismo em perguntas e respostas. Em 1904, já havia um texto oficial do Primo Catechismo della Dottrina Cristiana, editado em Porto Alegre pela Editora João Mayer, que em 1935, em 7ª edição, era editado para todas as dioceses das províncias eclesiásticas do Brasil meridional. Este catecismo constava dos seguintes capítulos, chamadas lições:

Lição Preliminar: Del segno della croce.

1. Di Dio. 2. Della Santissima Trinità. 3. Dio Creatore: degli angeli e dell'uomo. 4. Gesù Cristo. 5. Della Redenzione. 6. Della Santa Chiesa Cattolica. 7. Dell'orazione. 8. Dei comandamenti di Dio e dei precetti della Chiesa. 9. Del peccato. Dei vizi capitali. Dei peccati contro lo Spirito Santo. Dei peccati che gridano vendetta al cielo. Dei novissimi. 10. Dei sacramenti in generale. 11. Dei sacramenti. 12. Delle virtù principali e di altre cose che il cristiano deve sapere. Dei doni dello Spirito Santo. Delle beatitudine vangeliche. Delle opere di misericordia. (Em 1938, em Garibaldi, a Tipografia Jardim Missionário dos Capuchinhos publicava o mesmo texto sintetizado para a Primeira Comunhão: Piccolo Catechismo per i bambini.

Pe. Eugênio mostra a maneira pedagógica que empregara na estruturação do pensamento cristão das comunidades italianas que atendia:

"Nas primeiras vezes que lá estive, grande quantidade de povo se reunia. Bebia-se muito, fazia-se barulho e se dançava. Poucos, entretanto, vinham ao confessionário. Depois de eu haver aparecido quatro ou cinco vezes no lugarejo, as confissões a se ouvirem passaram a ser muitas. Os dias santos começaram a observar-se e, estando presente o padre, tudo ia melhor... Insistia eu em escolas, mas nem sempre encontrava em toda a parte um professor apto. E voltando eu outra vez, tinha-se abandonado a escola. Batia eu com insistência na tecla das catequeses dominicais das crianças. Conseguiu-se isso, ao menos de alguma forma, em alguns lugares" (Rabuske, 1978, p. 57).

A partir de 1886 começa uma pastoral em organização crescente nas colônias italianas

As presenças sacerdotais nas colônias foi o fator de estabilidade e organização pastoral crescente, motivando o surgimento de capelas, a organização e funcionamento regular de comunidades. Diz Pe. Eugênio:

"Mas outro problema surgiu depois disso. É que, como eu, também o povo começou a compreender a necessidade de haver padres que sempre estivessem no lugar".

Depois de apresentar a proposta ao Provincial e aoGeral, conclui:

"O Provincial e o Padre Geral responderam às repetidas representações que era impossível conseguirem-se padres italianos da Ordem dos Jesuítas. Finalmente, através de ordens minhas através de padres italianos, essa gente se dirigiu ao Cardeal Simeoni, então Prefeito da Propaganda Fidei. Este mostrou boa vontade, mas pelo fato de só querer sacerdotes bons, para o momento presente e também para o futuro, por ora não estava em condições de ajudar. Sacerdotes patrícios de Cremona, Verona, Venezia, Milano, Bergamo passaram a interessar-se muito pelos pobres colonos.

Também os Bispos fizeram decerto alguma coisa por eles. Em todo o caso surgiu em Piacenza a Congregação de São Carlos, fundada pelo Bispo Giovanni Battista Scalabrini (1887) em favor dos emigrantes italianos. Também de outras maneiras voltaram-se as atenções à cura de almas dos italianos daqui. É fato conhecido que, nos anos de 1886-1888, já trabalhavam alguns bons sacerdotes em Conde d'Eu, Dona Isabel e outras picadas. Em Caxias, houve os palotinos (1888); na Linha Zamith, um franciscano; em Castro, Dom Ottavio; no lugar reservado para a cidade (Conde d'Eu, hoje Garibaldi), Pe. Bartolomeo Tiecher e em Figueira de Melo, Pe. Giovanni Fronchetti e Augusto Finotti. Agora (a partir de 1896) são os capuchinhos que se dão bem conosco e nos vinham visitar. A partir de 1886, tive que voltar as minhas atenções especiais para as novas colônias de Encantado, distantes seis horas a cavalo de Estrela e do rio Augusto, que se desenvolveram depressa. Em grande parte localizavam-se elas no lado direito do Taquari. Pelo fato de a população de Estrela e Lajeado haver crescido com rapidez, só me foi dado ir para lá no máximo quatro vezes ao ano... atendemos, outrossim, a Conventos Vermelhos (hoje Roca Sales) até os anos da Revolução Federalista (1893-1895), fizemos o possível em meio a grandes dificuldades. Por toda essa parte acham-se agora sacerdotes diocesanos ou padres de São Carlos" (Rabuske, 1978, p. 58-60).

Se a colônia Caxias foi, inicialmente, um pouco conturbada religiosamente com a presença de um falso padre, com a extensa atuação do Pe. Antônio Passaggi, suspenso do uso de ordens, as colônias vizinhas, Dona Isabel e Conde d'Eu, tiveram logo o zelo de pastores preocupados e solícitos com a situação do imigrante.

Esses primeiros-pastores tiveram duas grandes preocupações: a) materialmente, estar ao lado do colono italiano para animá-lo na difícil situação de privação em que se encontrava, contrastando muito até com a também miserável situação que tinha na Itália; b) pastoralmente, todos acenam para a infelicidade das comunidades que não poderiam ter nem sacerdote, nem Missa. Portanto, uma igreja que tinha presente, com clareza, os dois direitos fundamentais do imigrante: o mínimo para viver e o mínimo para cultivar seu destino cristão.

Pe. Bartolomeo Tiecher (1848-1940) e sua proposta pastoral

Ordenado na catedral São Vigílio, em Trento, em 2.7.1871, depois de suas primícias pastorais em Malo e Civezzano, logo sentiu o efervescer da emigração trentina para o Brasil, inclusive de seus familiares, amadureceu a idéia de acompanhar e ajudar espiritualmente seus patrícios, como já o fizeram outros sacerdotes, entre eles Pe. Domenico Martinelli que, em 1873, emigrara para o Espírito Santo. Em outubro de 1875 embarcou em Havre com 392 tiroleses e 208 italianos, chegando ao Rio Grande do Sul em 13 de dezembro. Confirmado no cargo de capelão da colônia Santa Maria da Soledade, lá chegava em 23 do mesmo mês. Esta colônia era de alemães com alguns italianos piemonteses chegados já em 1873, entre os quais, os Martinazzo. Encarregado pelo bispo e a pedido dos colonos, em março de 1876 visitou os incipientes núcleos de Conde d'Eu, Figueira de Melo, Princesa Isabel, celebrando missa sob o céu aberto e dirigindo a palavra de orientação e conforto aos colonos que recém deixaram sua pátria. No ano seguinte, volta a visitar as colônias e vai até Caxias, administrando os sacramentos conforme jurisdição do bispo. De 1877-1881 foi pároco de Santo Inácio da Feliz e a 6.3.1886 foi nomeado vigário da paróquia São Pedro de Conde d'Eu, com jurisdição também para algumas capelas de italianos em São Vendelino. Cedo teve como auxiliares os padres Ottavio Cattaneo e Alberto Biagiotti. Devido a seu temperamento enérgico e zelo incontido, teve oposição de alguns carbonários, tendo que mudar a sede da paróquia para a Linha Zamith. O bispo, informado dos incidentes, renovou-lhe a nomeação para Garibáldi, onde permaneceu até fins de 1883, quando já estava sendo agenciada a vinda dos capuchinhos a quem deixaria sua própria casa. Depois disso passou a exercer ministério numa dezena de outras paróquias, sucessivamente, até o falecimento no Hospital de Roca Sales, a 27.2.1940, com 92 anos. Bom naturalista, estudou a flora rio-grandense, escreveu vários artigos e deixou uma obra inédita (Rubert, 1977, p. 47-50).

De suas correspondências por ocasião da emigração, deduzem-se duas preocupações pastorais: minorar a situação de privações materiais de toda a ordem dos colonos italianos e manter sua fé, prática religiosa dentro da sã doutrina da igreja, batalhando pela ortodoxia dos pastores e preocupando-se com as vocações sacerdotais.

Situação dos imigrantes. Sua primeira carta, de 27.10.1875, de Modane, publicada na Voce Cattolica, dá conta de que partiram 700 pessoas, quase todos trentinos, tendo visado os passaportes em Verona com muito rigor e achava o tratamento razoável, em razão das circunstâncias. Em carta de 30.10.1875, remata: "As dificuldades são grandes, especialmente para as crianças. Rezem por nós". Em dezembro escreve a Trento do Rio de Janeiro, onde chegaram no dia 1º, depois daqueles que tinham saído a 3 de novembro e lhes vieram ao encontro com estas palavras: "Estamos bem. Fomos traídos"! E destaca como do norte e de São Paulo chegavam notícias sinistras.

"Depois disso, tivemos uma nuvem negra de notícias de todas as colônias. Que é que acontecia? Eram pessoas que trabalhavam na cidade e que haviam sido mandadas a fim de aterrorizar os colonos e fazer com que aqui permanecessem, a fim de arranjar emprego, com irrisórios salários. Eu, porém, recomendaria a todos que não ficassem nas cidades e se dirigissem às colônias e isto por muitas razões. Não aconselharia a emigrar senão a lavradores com família; os solteiros encontram muita dificuldade de trabalho e se um mês percebem um salário, no outro gastam tudo. O Governo dá preferência às famílias. Além disso, sua fé e seus costumes são submetidos a rudes provas. E ninguém venha senão tem intenção de ficar. Não se acredite que aqui chegando se varrem o ouro e a prata. Também não se pense em encontrar casas e lavouras já feitas e campos cuidados. Todas estas coisas já têm os seus proprietários, que muito se esforçaram por consegui-las. É necessário que para cá venham com a intenção de trabalhar, ser industriosos e econômicos e em 10 anos... poderão acumular uma discreta fortuna e viver tranqüilamente. Quantos vieram para cá na certeza de transformar-se em grandes senhores e hoje choram o seu engano.

"Quanto à religião, vamos mal, a menos que o bom Deus não resolva operar portentos; faça-os, eu peço. Ouvi de alguns dos nossos que partiram no verão passado, os quais casam no registro civil, e ficam depois aguardando a passagem de um sacerdote para cumprir o seu dever de católicos, isto é, quando Deus inspirar a um sacerdote a passar por lá...

"De um modo geral há falta de sacerdotes. O bispo de São Sebastião (arcebispo do Rio de Janeiro) me dizia que tem quarenta paróquias, e muitas grandes, todas sem padre. Que caridade seria se viessem alguns, mas homens virtuosos, santos se fosse possível; ainda melhor, se doutos, embora isto não seja o principal. É necessário que se armem de muitas recomendações, e estas de muitas procedências, porquanto aqui os bispos são constrangidos a duvidar de todos; seria ainda melhor se acompanhassem os emigrantes ou ainda suas próprias famílias. Para mim foi mais valioso este fato, que as cartas do Senhor Bispo. Acredito que no Rio Grande do Sul haja ótimos padres jesuítas..."

Em carta de 19.3.1876, escrita de Santa Maria da Soledade, arremata, depois de informar que a colônia já estava povoada e por "alemães da Prússia, gente que tanto quanto posso perceber, não me parece a melhor do mundo. O bispo daqui me disse que as pessoas ficaram admiradas com os sentimentos e a vida cristã de nossos trentinos, e ouvi chamá-los pessoalmente, de verdadeiros católicos. Deve-se concordar que aqui, na verdade, está chegando a nata de nossas comunidades. Só faltam os padres, e de modo especial, os bons padres, sobretudo nas regiões mais quentes e povoadas por indígenas. Estes alemães, mesmo que se digam católicos, apresentam muito poucas diferenças dos protestantes, os quais serão uma terça parte ou pouco mais" (Gardelin, 1991. FH: 20, 21, 22 e 23.2.1991).

Indiscutivelmente, a preocupação de Pe. Bartolomeo Tiecher era com a situação de penúria e desproteção material do imigrante, também sem o mínimo de atendimento religioso, com falta da presença de bons sacerdotes, para que tudo procedesse de acordo com as normas da Igreja. Em 28.9.1885 escreve ao bispo diocesano, respondendo à reclamação de Antônio Joaquim de Menezes, citando vários matrimônios realizados sem jurisdição que ele (Pe. Bartolomeo), injustamente, no dizer de Menezes, considerava nulos, esclarece:

"É muito fácil ver que o referido se acha em erro, em pontos graves de Direito Canônico, porque, primeiro, julga válidos os casamentos celebrados diante de qualquer padre, que não seja o próprio pároco, ou tenha deles delegação. Segundo, julga o casamento dissolúvel quando é o contrário: (...) uma tal doutrina seria muito fatal. Não só ela fere a igreja por ser contrária aos cânones, mas propagando-se, é capaz de levar a desgraça ao seio de muitas famílias. Porque desde que os fiéis pensem, que até fora da própria freguesia, diante de outro vigário sem licença do próprio, podem legitimamente casar, eis que haverá os que procurem os párocos que casem sem exigências de estilo (proclamas, confissão, etc.), ou por menor espórtula, ou finalmente por não se darem com o próprio; eis correrem logo fora da freguesia, e assim não contraírem o casamento, que pensam de contrair, do que ficando depois cientes muitos deles, desgostosos já pelas humanas misérias de sua união, quererão antes a separação do que o Casamento; eis a desgraça no seio das famílias. Dever então é fazer conhecida a verdade a fim de evitar tais acontecimentos. Disso também resulta que seria tempo perdido crear freguesias com limites determinados, e nomear vigários para freguesia determinada, desde que qualquer padre tenha tão ilimitada jurisdição. Direi mais. O casamento de Meneghini com a Martinazzo eu disse que é nulo, porque assim o é, e não fui eu o primeiro a declará-lo. O pai da noiva, Giovanni Martinazzo, como soube as coisas estarem adiantadas demais, foi ao próprio vigário, em Bom Princípio, pedir o casamento de seus filhos; o vigário, que não era ciente do que havia já entre os noivos, respondeu que só depois do advento o podia fazer. Pelo que o Martinazzo, no lugar de se esclarecer em pedir a dispensa do tempo clauso ou o que mais o vigário exigisse, sem mais foi com seus filhos ao capelão de Conde d'Eu, e da tarde para a manhã estavam casados" (Martinazzo, 1992, p. 112-113).

Era então o capelão de Conde d'Eu Pe. Domenico Grecca, ex-dominicano (Rubert, 1977, p. 120).

Esta medida do Pe. Bartolomeo parece intempestiva, mas realmente é sábia e oportuna, se considerarmos a vinda e presença não sempre regulares e positivas de sacerdotes na região. Esta medida, além de ser conforme o direito, auxiliava à edificação das comunidades e à responsabilidade pessoal de cada um dos fiéis.

Nessa mesma época, antes deste posicionamento do Pe. Tiecher, o jesuíta Pe. Eugênio Steinhart, observando certa praxe de sacerdotes que ministravam livremente os sacramentos dentro e fora do próprio território, ocasionando transtornos, geralmente com exageros nas cobranças de taxas, assim se posiciona:

"Compreendi que essa espécie de cura de almas não podia continuar por tempos ilimitados. Dirigi-me, pois, ao Sr. bispo, perguntando se as colônias italianas ainda faziam parte da (paróquia) de Estrela, ou se dela haviam sido desmembradas. Respondeu o bispo que nenhuma separação se tinha feito, mas que ele, em consideração dos requerimentos das direções coloniais, lhes havia mandado padres, contemplados também eles com plena jurisdição e ainda que a mim, como antes, ficava confiada essa cura de almas" (Rabuske, 1978, p. 56).

Seguramente a presença do Pe. Bartolomeo Tiecher em Conde d'Eu, do Pe. Eugênio Steinhart em Estrela e do Pe. Giovanni Menegotto, em Dona Isabel (pena não tenhamos escritos deste, senão os maravilhosos registros paroquiais, que são a primeira história de cada imigrante), começaram a caminhada de uma igreja organizada, base de todo o rápido e sólido progresso das comunidades italianas.

Pe. Bartolomeo Tiecher demonstra sua profunda espiritualidade nos discursos que escreveu, entre os quais, um sobre a Paixão de Cristo, para a Sexta-Feira Santa, mostrando que a paixão de Cristo é a paixão do cristão, numa forma de vida onde os sofrimentos se sucedem, em meio às esperanças de serem transformadas pelo Pai, assim como o Cristo caminha para a Ressurreição que lhe parece clara somente a partir do momento de consciência plena dos sofrimentos livremente aceitos. "Faça-se em mim segundo tua vontade".

Num poema Alla Santissima Vergine, demonstra sua filial devoção a Maria, assim concluindo:

Cielo e terra si rallegrino!

I celesti han lor Regina.

Madre abbiamo noi divina.

Nel creato, Dio mirabile;

Può e fa tutto nell'amore,

In Maria con più splendore,

Ella in tutto è superiore.

A Maria sia lode, ognor!

Aprile del 1935. Côn. Bartolomeo Tiecher

Pe. Domenico Antonio Munari:situação do imigrante

De coadjutor (1863-1865) de Fastro-BL, depois pároco de mesma localidade (1865), embarcou em 27.12.1876 no navio francês, a vela, L'Auregeid, em Bordeaux, com 275 emigrantes. Forte temporal e o mau estado da nave provocou um naufrágio em La Rochelle, salvando-se todos, exceto talvez uma menina da família Dall'Agnol, que por descuido teria caído na água. Em navio melhor reembarcaram, chegando ao Rio Grande do Sul numa das Linhas de Dona Isabel, que Pe. Munari chamou de Nova Fastro, em homenagem à sua paróquia italiana, recebendo uso de ordens da Cúria de Porto Alegre em 28.5.1877, com sede na Linha Palmeiro, onde se preocupou com a colocação dos imigrantes e a aquisição da terra que lhes fora prometida. Faleceu a 27.3.1878, escoiceado pela própria mula, ao levar os socorros espirituais a seus próprios fiéis (Rubert, 1977, p. 51-52).

Na Revista Il Tomitano, jornal de Feltre, de 16.2.1877, encontra-se sua carta, dirigida ao pároco de Rocca di Arsié- BL, que assim conclui: "Non lasciate partire per Bordeaux vostri parrocchiani; siamo tutti rovinati". Mas, é na carta de 13.3.1878 (faleceu no dia 28), publicada em Il Tomitano (1.5.1878, p. 69), escrita de Dona Isabel, onde manifesta suas preocupações de ordem material e espiritual com relação à situação do imigrante nesta colônia. A carta é dirigida ao Pe. Giacomo Forlin, de Santa Giustina di Feltre-BL, adversário da emigração. Impressionou-se com a situação dos novos imigrantes, pois os primeiros foram mais afortunados, porque receberam do Governo viagem e terras e tinham sido bem tratados, por isto, diz:

"Quando scrivevano in Italia non potevano non ricantare le lodi di questi paesi e benedire il momento che si pensarono di abbandonare la patria per venire a questi luoghi. Come tu puoi immaginare, ciò lo facevano sì con qualche verità, ma non però senza qualche esagerazione. Qui si rinvennero privi di sacerdoti, di medico, di casa, di chiese, di ospedali e di ogni altra sorte di bene, fuori il vito, e solo colla lontanissima speranza di potere migliorare questa condizione coll'andar di lunghissimi anni e forza di fatiche e sudori e privazioni.

"Supponi che allora fosse il giorno delle palme, ora invece siamo, pei nuovi arrivati, il Venerdi Santo. Son cangiati i tempi, ed i nuovi emigranti incontrarono cose assai diverse dai primi, e maledicono l'ora ed il momento che lasciarono la patria per questi luoghi inospiti, e maledicono quelli che dipingevano, scrivendo, le cose di qui color di rosa, e piangono, e sospirano, patiscono e languiscono e strilano nella miseria. Questi ultimi giunti, sonno immediatamente cacciati nell'interno della selva con soli dieci giorni di sostenimento, dove forse trovano una baracca da ricoverarsi, e forse devono farsela da se; quindi, dopo questo spazio di tempo, devono a viva forza procurarsi il vitto col lavorare nelle strade interne ed esterne delle colonie; e perché s'abbiano a ricredere a tempo utile, per non pentirsi tardi ed invano, ti voglio inchiudere il recente decreto autentico di questo. Ora, però, hanno sacerdoti; ma la messa non la possono ascoltare, perché il governo non ha per ancó procurato gli arredi sacri; e poi qui in queste selve si è lontani dai centri un 250 kilometri, poco più poco manco; quindi tu puoi vedere quale consolazione dev'essere quella d'un italiano lasciare tante comodità, come si trovano in Italia, per venire a ficcare in questi orridi boschi, lontani dalle principali città, come ti dissi, lontani dal medico e dal prete chi un giorno, chi due, e lontani da ogni possibile comodità, e soli in un bosco vergine, privi di tutto, fuori di quello che si recano seco dal luogo natio.

"A peggiorare la condizione dei recenti emigranti, s'aggiunga che devono pagare non solo il viaggio terrestre, ma perfino il viaggio di mare... Quante miserie nei nuovi sopravegnenti! Fanno pietà alle stesse fiere. Se poi vuoi sapere che ne sia alcune volte della sicurezza pubblica in queste località selvaggie, ti basti sapere, che il giorno delle Ceneri, anno corrente, tre povere innocenti persone, fra cui una donna ed un vecchio, lasciarono la vita sotto le palle di alcuni militari pieni d'acquavite, e ciò nel centro della Colonia Donna Isabella..." (Don Domenico Munari, ex Paroco di Fastro).

Pe. Giovanni Menegotto, de Calaone-PD, ordenado a 10.7.1865, partiu para o Brasil em 1877 com outros conterrâneos, muitos dos quais se estabeleceram com ele em Dona Isabel, onde a 6.2.1877 recebeu a provisão de capelão, incluindo Conde d'Eu e se tornaria o 1º pároco pela lei provincial de 26.4.1884, que criava também as paróquias de Santa Teresa de Caxias do Sul e Santo Antônio de Silveira Martins. Construiu a Igreja matriz, adquiriu três sinos Colbacchini, de 1000, 800 e 500 quilos respectivamente. Em 28.12.1889 assim descreve sua paróquia de 15.000 almas:

"Toda gente pobre, estabelecida nas baixadas, ou nos montes, que vão reduzindo ao cultivo as cerradas e impenetráveis florestas de antes; por dificuldades de comunicação e pela distância dos lugares, estes fiéis construíram para eles umas 60 capelas de madeira, como são suas casas e habitações, e aí se reúnem, nos dias festivos, para a oração comum e prática do catecismo aos adolescentes, supervisionados, visitados, e animados muitas vezes por mim e pelo padre coadjutor da paróquia, com a celebração da missa e outras funções religiosas" (Arq. S. C. Prop. Fide Amer. Merid. SC, cod. 15, f. 1110, apud Rubert, 1977, p. 54-55).

Pe. Menegotto lança, assim, o modelo da capela, onde se realiza todos os domingos e dias festivos a reunião de todos para a oração comum e o catecismo das crianças, medida já sugerida pelo jesuíta Pe. Eugenio Steinhart e posta em prática em todas as colônias italianas, com visitas programadas do sacerdote, que é o modelo ainda vigente nas colônias italianas. As capelas, bem como as estradas e escolas, eram construídas pelos próprios colonos, que foram se habituando à colaboração comunitária, seja para o religioso, o educacional e o social, elementos que hoje não mais aparecem dirigidos e orientados apenas pelo religioso como então.

Em Silveira Martins, com a morte de Pe. Vittore Arnoffi, é confirmado pároco (28.4.1885), Pe.Antonio Sorio, que "construiu a igreja matriz e levantou muitas capelas, percorrendo todas as linhas coloniais, mesmo as mais distantes" e, a partir de 1877, a grande paróquia de Silveira Martins passou a ter capelães palotinos em Vale Vêneto, Nova Palma e Núcleo Norte, enquanto em Arroio Grande se achava o Pe. Francesco Comoretto (Rubert, 1977, p. 65-67).

Pe. Ottavio Cattaneo, primeiro cura de Jaguari, por provisão de 12.10.1889, "encontrou tudo por fazer, deu início à atual igreja matriz dedicada à Imaculada Conceição. Pregava com ardor e percorria solícito as diversas linhas da incipiente colônia, fundando capelas nos pontos mais povoados... Mais de uma vez houve de refugiar-se no interior devido às ameaças os anti-clericais" (carbonários) (Rubert, 1977, p. 71).

Em Alfredo Chaves, Pe. Matteo Pasquali tomava posse como primeiro pároco a 16.3.1886, com jurisdição numa vasta região que hoje abrange vários municípios (Nova Prata, Nova Bassano, Nova Araçá, Protásio Alves, Vista Alegre do Prata, Fagundes Varela, Vila Flores e parte do território de alguns outros municípios),"mesmo assim, auxiliado pelos colonos, levantou muitas capelas, visitando-as com assiduidade, animando os imigrados a perseverarem no espírito de trabalho e de família. Em defesa dos colonos, muitas vezes levantou sua voz frente às autoridades e diretores da distribuição de terras. Na Revolução Federalista de 1893 portou-se com bravura, chegando a recorrer aos próceres políticos seus conhecidos, a fim de defender a vida e os direitos dos colonos" (Rubert, 1977, p. 74-75).

Poderíamos percorrer todas as paróquias que, provavelmente, desde sua criação, a não ser casos esporádicos, conseqüentes de irregularidades ou de sucessão muito rápida de capelães, párocos ou curas, como foram os inícios de Campo dos Bugres, em todas encontraríamos como primeira providência a assistência ao imigrante e a organização dos mesmos em comunidades de capelas, solidificadas pelas visitas periódicas dos pastores responsáveis.

Em 1896, chegavam ao Estado, a convite de Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, Capuchinhos e Carlistas, destinados também às colônias italianas. Nesta época já a igreja estava organizada em suas linhas gerais, contando já a quarta colônia com a presença também dos palotinos (1888) e seguiria com atendimento pastoral ampliado e com maior cuidado na formação do Clero e começava toda uma dinâmica em prol das vocações sacerdotais.

Frei Bruno de Gillonnay e a Missão dos Capuchinhos

Os capuchinhos se estabeleciam definitivamente em Conde d'Eu, a 18.1.1896, com a chegada de Frei Bruno de Gillonnay e Léon de Montsapey, acompanhados do provincial da Sabóia, Frei Rafael de La Roche. Frei Bruno que liderou a Missão, a partir de sua residência em Conde d'Eu, em casa cedida por Pe. Bartolomeo Tiecher, depois de sua longa experiência e de ter percorrido todas as colônias italianas do nordeste do Estado, em relatório a Dom Giovanni Battista Scalabrini de 12.10.1904, assim descreve a situação material e religiosa do imigrante italiano e a atuação da igreja junto ao mesmo:

"Excetuados alguns imigrantes que se fixaram nas cidades, importa reconhecer que os 300.000 italianos (incluídos os descendentes aqui nascidos) do Rio Grande do Sul, até o presente, se conservavam fiéis à prática da religião, sempre que se lhes ofereceu a oportunidade. São ávidos de festas religiosas, da pregação e dos sacramentos.

"Chegados a um país deserto onde nada mais havia que florestas virgens e obrigados a se abrigar e a se instalar com suas famílias, não esqueceram a casa de Deus. Em todas as paróquias existe, ordinariamente, uma igreja conveniente, às vezes muito bela. Além da igreja construíram um sem número de graciosas capelas, onde se reúnem, aos domingos, para rezar comunitariamente, já que, pelas distâncias, não lhes é possível ir à igreja paroquial. Igrejas e capelas são fruto do suor dos bravos colonos, porque aqui o Governo não faz nada pela Igreja, e não existem famílias opulentas, uma vez que todos chegaram a uns 25 anos em situação de total pobreza. A fé destes colonos não recuou diante dos pesados sacrifícios dos primeiros anos e eles continuam erguendo templos a Deus e à sua divina Mãe, ou renovando e embelezando os que já existem.

"Contudo, esta fé, ainda que sincera, está exposta a três grandes perigos: o primeiro, as distâncias e a extensão das paróquias que não permitem aos sacerdotes anunciar a todos a palavra de Deus e nem aos fiéis freqüentar assiduamente a Igreja. O segundo está na falta de sacerdotes, embora seus missionários se devotem com zelo admirável aos cuidados destes bons colonos... É verdade também que os capuchinhos emprestam seu contributo ao clero secular. Mas isto não é suficiente... O terceiro é o resultado dos dois primeiros: a ignorância religiosa que ameaça tudo invadir se não lhe opuserem remédios eficazes. Os colonos italianos chegaram aqui com escassa instrução religiosa, todos pobres e filhos de pobres. Absorvidos pelos trabalhos e pelos sacrifícios que sua instalação na floresta virgem reclamava, eles nada mais puderam transmitir a seus filhos que uma instrução religiosa muito elementar. Preocupados, porém, ativamente, em conjurar estes três perigos que ameaçam a fé dos italianos, trabalhamos para organizar as escolas, a Imprensa e as Missões" (Apremont/Gillonnay, 1976, p. 245-247).

Também na visão dos capuchinhos a situação do italiano era de pobreza e abandono, e a capela seria a garantia do contato com a religião, e as visitas dos sacerdotes seriam necessárias para o fortalecimento da fé e para fazer frente à ignorância religiosa. A falta de escolas fez com que a primeira geração de descendentes aqui nascidos fosse, em grande parte, de semi-alfabetizados (Gardelin/Costa, 1992).

A freqüência aos sacramentos sempre é vista como ponto fundamental da pastoral e da organização de capelas, abreviando as distâncias com a sede paroquial e possibilitando esporádicas presenças dos sacerdotes em datas determinadas, e com programação preestabelecida.

Visão scalabriniana dos imigrantes italianos

No Rio Grande do Sul, os fundamentos da obra scalabriniana foram lançados em 1896, em três centros principais de atividades missionárias: Encantado, Capoeiras e Nova Bassano (Azzi, 1987, p. 293).

Em 20.4.1896, chegava a Encantado, para iniciar a Missão Scalabriniana, o Pe. Domenico Vicentini, nomeado provincial do Brasil a partir de 1898. Já em 26.5.1896 escreve de Encantado, dando as impressões da chegada e dos imigrantes italianos:

"A Missão que me foi confiada tem, aproximadamente, uma superfície de 50 milhas quadradas; grande parte ainda não foi ocupada. Por enquanto, a população é de, mais ou menos, 3.000 almas; seu crescimento, porém, será rápido, pois a terra é das mais férteis... A população é toda italiana, com exceção de umas poucas famílias brasileiras, alemãs e francesas. É natural da Alta Itália, contando, inclusive, com muitos tiroleses. Muitos bons religiosos, todos estão imensamente contentes por terem um sacerdote, e sabem tirar proveito.

"Mas, e agora vem o mas, não há união entre os diversos grupos. Cada grupo tem a sua capela, e todos quereriam que o padre residisse com eles. Quando isto não acontece, pouco ou nada contribuem para o seu sustento, e menos ainda para construção da igreja paroquial. A grande dificuldade das colônias é a escolha do local, onde se edificar a matriz; é aí que se formará o povoado, a vila, a cidade. É lógico, portanto, que os moradores do núcleo são os mais privilegiados e interessados. Daí se explicam as grandes rivalidades entre os colonos italianos para estabelecer, ou aceitar, a escolha. E esta é a minha dificuldade atual, apesar de os padres jesuítas, que visitam estas colônias, haverem escolhido, de acordo com o bispo, a capela de São Pedro, em Encantado" (Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre).

No Natal de 1896, Pe. Pietro Colbachini, o que determinou o lugar da cidade, considerado seu fundador, rezou a primeira missa na atual cidade de Nova Bassano. Em 24.11.1896, ele já havia escrito da futura Nova Bassano (nome que deu em homenagem à sua terra natal), para Scalabrini:

"O bispo mandou Pe. Seganfreddo e eu assistir as 400 famílias italianas, pertencentes às últimas linhas de Alfredo Chaves, da 8ª à 10ª. Estão ainda em situação de começo, quase sem estradas e paupérrimas. Em cada linha, é verdade, já foram construídas capelas suficientes para conter, cada uma delas, 200 pessoas, mas estão completamente desprovidas das alfaias necessárias, até mesmo da mesa, e são tão baixas que, com este calor, durante as celebrações nos parece estar no forno"(Archivio Generale Scalabriniano).

Em 1904, por ocasião da visita de Scalabrini ao Rio Grande do Sul, já havia, em Nova Bassano, 30 comunidades de capelas, as mais longínquas, à distância de 45 quilômetros, ou um dia a cavalo.

Importante para o pensamento pastoral é a obra de Colbacchini, que antes do Rio Grande do Sul, e antes mesmo de pertencer a uma congregação para os imigrantes, estivera em São Paulo e Curitiba, é o livro que escreveu e publicou por ocasião de seu regresso à Itália, depois do que seria enviado ao Rio Grande do Sul, Guida spirituale per l'emigrato italiano nella America (1896). O texto se dirige Ai coloni italiani, diretamente falando dos problemas que as novas realidades podem apresentar para sua vida espiritual. Destaca o valor da santa missa, da eucaristia; aos jovens faz sugestões e mensagens de como se preparar para o matrimônio, propõe as devoções a São José, à Santíssima Virgem e a Via Sacra. Há um espaço para Lodi Sacre e Prospettiva di dottrina Cristiana. Sua preocupação é dar às mãos do imigrante um manual completo (são 18 capítulos e 416 páginas), onde cada um pudesse cultivar sua vida espiritual onde estivesse, perto ou longe ou em lugar onde não houvesse igreja. A obra é um testemunho de fé na capacidade do colono italiano se portar como cristão, em sua família (muito enfatiza a vida familiar, o uso das coisas, a honestidade na compra e venda), prevendo uma forma de vida cristã leiga. Aos jovens em geral faz advertências ao casamento cristão sério e preparado, às jovens fala da sobriedade cristã na escolha e preparo do dote. Recomenda o sentido da penitência cristã, observando, mesmo longe da igreja e do padre, os dias festivos, bem como cumprindo os preceitos do jejum e da abstinência.

O pioneiro, Pe. Domenico Vicentini, tem toda uma proposta de pastoral que testemunha com clarividência no livro que publica em 1920, expressando sua prática de pastor e guia. O livro se intitula: La preghiera vocale, que contém: significado da oração, tipos de oração, necessidade da oração vocal privada, em família e em comunidade. As jaculatórias como forma de viver a presença de Deus, recordar as almas do purgatório, ajuntar méritos para a vida futura e cultivar a própria vida espiritual.

Desnecessário se faz continuar citando exemplos para comprovar o zelo pastoral que, à medida da presença continuada de sacerdotes do clero ou de congregações religiosas, se expressa de forma sistemática, com a comunidade da matriz e as comunidades das capelas, estas com presenças menos freqüentes do sacerdote, mas florescendo como comunidades de oração, educação e lazer sob a responsabilidade da própria comunidade.

A capela: nova forma de vida católica

A capela, surgida de uma necessidade natural de expressar a própria vivência religiosa, através de um lugar de oração, de um santo patrono, de celebração dos dias festivos e dos acontecimentos naturais da vida, como celebração de enterros, novenas e votos por ocasião de intempéries e infortúnios, sofreu modificações e, hoje, é apontada não já como uma comunidade puramente religiosa, mas que se volta sempre mais ao social, ao recreativo, muitas vezes atraída pelo lucro de festas, reuniões dançantes...

No entretanto, como acena o cônego Wunibaldo Backes (1992), tais comunidades, além de terem sido a garantia de uma expressão cristã, tornavam-se elo de unidade com a grande comunidade paroquial e permitiam um contato organizado com o pároco ou quem lhe fizesse as vezes.

Já solidificada a experiência da capela, aparece como uma comunidade diferente da comunidade paroquial a que pertence, mas da qual deveria receber a orientação e da qual emanaria o atendimento ministerial. Talvez para deixar mais claras as atribuições de uma e outra, por volta de 1930, numa atitude pioneira, os párocos da Comarca Eclesiástica de Bento Gonçalves se reúnem e redigem um estatuto para as capelas de sua jurisdição, dividido em três capítulos: "I. Relazione delle cappelle colla venerabile Curia e con la Parrocchia. II. Decoro e funzione delle cappelle. III. Per gli ammalati." O Estatuto foi exarado pelos párocos, Pe. Antônio Zattera, de Bento Gonçalves; Frei Antônio Bampi, de Garibáldi; Pe. José Ferlin, de Santa Teresa; Pe. Luiz Mascarello, de São Lourenço de Villas Boas; Pe. Girolamo Bortolotto, de Faria Lemos; Pe. Luigi Guglieri, de Montebelo e contou com a aprovação da Cúria de Porto Alegre, à qual pertenciam então as referidas paróquias.

O desenvolvimento rápido das capelas, que se multiplicavam por iniciativa dos próprios colonos, fez com que os párocos delimitassem as atribuições, propondo a distinção e atribuições dos dois tipos de comunidade: a paroquial e a da capela, por isto no capítulo I, § 1º se diz: "Le cappelle dipendono direttamente della Curia Metropolitana e della parrocchia alla quale appartengono." Com este parágrafo, os párocos reclamam para si a orientação das capelas, evitando atividades paralelas. E todo o capítulo I se refere às contribuições, às capelas, à Cúria, à paróquia, à Obra das Vocações Sacerdotais, à dependência da paróquia e da cúria para a escolha e troca de fabriqueiros, bem como para a construção e reforma de capelas. "Le cappelle dipendono pure della parrocchia alla quale devono contribuire ed aiutare nei suoi lavori. A questo scopo vi sarà in ogni cappella un consigliere della parrocchia nominato annualmente dal parroco".

Os párocos da Comarca de Bento Gonçalves, com o Estatuto das capelas, assumem o controle das mesmas, com a certeza de evitar abusos e atividades paralelas, mas ao mesmo tempo admitem que seu funcionamento e cultos religiosos, na maior parte das vezes, ocorrem sem a sua presença e intervenção, o que significa admitir um culto leigo, como se expressa no § 5º do II capítulo, evidenciando, porém, a primasia à participação na missa paroquial que insinua não ser obrigatório senão para quem o pudesse percorrer, sem grave incômodo, longas distâncias:

"In tutte le cappelle, nei giorni di festa, la dottrina cristiana venga fedelmente insegnata ai fanciulli. Il catechista tenga un registro di tutti gli alunni annotandovi la frequenza e apresentandolo al parroco quando andrà a celebrare la S. Messa. § 6º – Dicasi pure il santo rosario, al quale intervengono almeno quelli che assolutamente non possono andare alla santa messa in parrocchia. § 7º – Solamente nelle cappelle lontane più di due ore dalla parrocchia è permesso far le funzioni al matino. Durante dette funzioni si prega ai padroni di vend' e negozi a chiuder le porte delle loro case".

Recordo que na infância, quando se estava a rezar o terço na capela, muitas vezes, na estrada, estavam passando os que tinham ido à missa na paróquia. Era convencionado entre nós que ao menos um de cada família fosse à missa no domingo, para trazer à família a mensagem e avisos do pároco. Geralmente iam tantas pessoas quantos fossem os cavalos disponíveis. Também, na região, era costume e ainda hoje vigora de os sócios de capela assumirem o compromisso de não abrir bodega, venda ou pequeno negócio, a fim de não prejudicar a bodega ou venda da capela.

Segundo o § 9º do III capítulo deduz-se que nesta comarca já havia o hábito do padre fazer os enterros, que geralmente, antes, ao menos nas localidades mais distantes da paróquia, eram feitos pelo padre leigo da capela, com canto do De profundis, do Miserere, do Dies irae (este mais raramente) e a reza do ofício dos defuntos, com a procissão ao cemitério. "Ogni qualvolta muore una persona, il capofrazione avvisi al parroco".

Frei Bernardin d'Apremont, que chegou ao Rio Grande do Sul, para integrar-se aos demais capuchinhos da Sabóia, em 1898, utiliza em seu relatório ao ministro geral, pela primeira vez, o termo padre leigo, para significar o fiel, sócio de uma capela, que por sua capacidade e devoção se dispunha e era aceito pelos demais para puxar o terço, presidir os enterros, rezar ou cantar as ladainhas. Mas, o puritanismo francês não viu com bons olhos a ação do padre leigo que, por vezes, parecia expressar ressaibos de superstição, como é o caso que descreve:

"Um ótimo pároco chegava, um dia, pela primeira vez, a uma de suas capelas mais afastadas. Ao entrar percebe uma bacia de água. Que água é esta, pergunta? – É água benta, Senhor pároco. – Quando foi benta? – Recentemente. Nosso padr' benze seguido para que tenhamos sempre água limpa. O pároco tomou a bacia e despejou a água pela janela, dizendo: "Tragam-me mais água. Benzê-la-ei, assim terão água benta mesmo."

"A ordem foi executada, mas, escandalizados, mandaram uma comissão com queixas ao bispo em visita na localidade. O novo pároco, diziam, profanou coisa tão santa. O Senhor Bispo quis saber do que se tratava e quando chegou entre essa boa gente, falou-lhes nestes termos: "Queridos filhos, queixam-se do novo pároco, porque jogou fora pela janela aquilo que vocês chamam de água benta. Estivesse eu em seu lugar teria jogado fora também a bacia!" Explicou, depois, as prerrogativas sacerdotais e os limites dos poderes dos padres leigos. Esses bons cristãos aceitaram a demonstração, mas em outras capelas eram mais obstinados. Poderia citar uma onde existiu um longo cisma com seu legítimo vigário, excelente sacerdote genovês. Opunha-se-lhe o padre leigo. Não precisamos deste novo pároco, diziam os teimosos; ele não precisa ser tão orgulhoso. Podemos nos confessar em outro lugar; e para a missa temos o nosso padre da capela. Entretanto, esses casos extravagantes eram raros, a maioria dos padres leigos, nas colônias do Rio Grande do Sul, eram boa gente; exerciam as funções de sacristães, de catequistas e presidiam as orações públicas com fé e piedade. Submetiam seu zelo à direção dos párocos. Muitos me impressionaram pelo seu espírito de fé, de humildade e de caridade" (Apremont/Gillonnay, 1976, p. 109).

Havia, pois, uma presença ativa e efetiva, nas comunidades rurais do padre leigo e, seguramente, alguns passavam além de suas atribuições. Por esta razão e outras, os párocos citados decidiram legislar sobre as capelas.

A celebração da missa, a confissão e a participação na eucaristia é o centro do estatuto das capelas. Para o atendimento aos enfermos, logo se pensa na eucaristia:

"Si Qualora sia necessario il sacerdote per un infermo: 1º si mandi una persona a prenderlo. Detta persona sia di fiducia e sappia dare informazioni sullo stato dell'ammalato: se parla bene, se può inghiuttire che malattia ha, se è sordo, ecc... 6º All'arrivo del sacerdote col Santissimo, tutti i presenti faccian silenzio, giù il cappello, e in ginocchio per adorare Gesù in Sacramento" (cap. III).

A preocupação e o endereçamento de toda a atividade religiosa para a eucaristia desencadeou uma mística e uma tradição que pode muito bem ser solidificada, hoje, quando as capelas têm o privilégio de ter ministros da eucaristia. Enquanto os padres leigos dirigiam funções, os sacristães ajudavam ao sacerdote, os ministros da eucaristia, hoje, servem a eucaristia à comunidade. Imagine-se este privilégio nas mãos dos padres leigos e das comunidades iniciais das colônias italianas! Teria o significado de uma graça tão grande, quase como a presença do padre para celebrar a Eucaristia. Na tradição do italiano, o que fica condicionado à presença sacerdotal é a confissão, outro piular da piedade do imigrante, à qual estava ligada diretamente a idéia de salvação, especialmente na ocasião da morte.

A possibilidade de celebrar a Eucaristia e ouvir confissões, celebrar os sacramentos era a razão de busca do ministério sacerdotal, mesmo se institucionalmente o sacerdote não era considerado competente. Parece ter existido a clara idéia entre os imigrantes da eficácia sacramental ex opere operato, isto é, pela sua própria aplicação do sacramento, independente da santidade do ministro, que é apenas intermediário da ação de Cristo pelos sacramentos.

O casamento religioso estava, em linha de valores, ao nível da própria eucaristia, pois quem não casasse no religioso não poderia participar da eucaristia e, pior ainda, não poderia ser absolvido, estando, pois, comprometida sua salvação! No 1º livro de registros de casamentos, batizados e óbitos, da Colônia Caxias, existente no Cartório de São Sebastião do Caí, da época em que o casamento religioso tinha também validade para o civil, em 13.10.1878 aparece o primeiro casamento realizado perante o padre suspenso, Antônio Passaggi, o casamento de Domenico D'Ambros e Teresa Gavioni, depois do qual constam oito casamentos, dos quais somente um feito segundo o rito romano e 7, perante o padre suspenso, Antônio Passaggi, sendo o último destes o de Antonio Fantinel com Orsola Sebben, realizado a 9.2.1879.

Estudo amplo da dinâmica evolutiva das capelas nas áreas de colonização italiana encontra-se em O significado das capelas nas colônias italianas do Rio Grande do Sul, do Pe. Antônio Galioto.

Presença anti-clerical

A situação irregular de alguns padres, que teria sido, no caso de Santo Antônio da Patrulha, por exemplo, um dos motivos do atraso religioso da população (Backes, 1992), não repercutiu da mesma forma nas colônias italianas, onde o católico italiano buscava, em primeiro lugar, os sacramentos, não se preocupando com a situação pessoal e jurídica do sacerdote. Trata-se de um colono com idéia clara dos sacramentos como canais de salvação, por isso tão necessários à salvação, quanto a saúde para o trabalho. Mas, a situação irregular, ou pouco edificante de alguns ministros, nos primórdios, fez com que surgisse contra a igreja a acusação de carbonários, maçons e, principalmente, de anti-clericais políticos da visão laica da República Italiana nascente. Um estudo aprofundado poderia dizer se os fatos ocorridos de perseguição à igreja em vários lugares se deve a este ou aquele grupo, ou a todos conjuntamente. Mas nos cabe, ao menos, ter presente estes fatos.

A nosso ver, o anti-clericalismo, como também o rigorismo de muitos sacerdotes, como Bartolomeo Tiecher, Eugenio Steinart... em exigir do bispo uma jurisdição territorial e não jurisdições amplas para sacerdotes, entre os quais estavam alguns pouco edificantes, contribuiu para que a igreja se organizasse internamente, os sacerdotes fizessem uma constante auto-crítica de seus procedimentos pastorais e, com isto, as comunidades italianas foram conquistando uma organização religiosa sempre mais harmônica e sólida, que tornava sempre menos justificáveis a ação e críticas dos anti-clericais, que foi sistemática nos inícios das colônias italianas.

Em Caxias, os carbonários assaltaram a casa paroquial, preocupados com a ação do pároco, Pe. Pietro Nosadini, que iniciaria, em 1.1.1898, a publicação do boletim paroquial Il Colono Italiano e promovera o Iº Congresso Católico da Colônia, obrigando-o a retirar-se para Nova Milano e, depois, para Nova Roma, isto em fevereiro de 1897.

Em Garibáldi, Pe. Bartolomeo Tiecher, nomeado pároco em 6.3.1886, teve que se retirar para Linha Zamith, para fugir às oposições feitas por alguns carbonários, com apoio e incentivo de correligionários nacionais, que se opunham a seu zelo pastoral.

Em Silveira Martins, Pe. Vittore Arnoffi, nomeado capelão a 3.11.1881, teve tal oposição de carbonários do lugar e cidades vizinhas que a eles se atribui a provocação de sua morte, em 25.4.1884, com 41 anos. A mesma sorte, por elementos da mesma mentalidade, teve seu sucessor, Pe. Antonio Sorio, que faleceu depois de uma emboscada, em que foi assaltado, batido e machucado, a 2.1.1890.

Em Alfredo Chaves, Pe. Matteo Pasquali, para onde chegara como cura em 16.6.1886, enfrentou dificuldades com a Revolução Federalista, em defesa dos direitos dos colonos; mas se Pe. Matteo sofreu com a política, seus sucessores, os capuchinhos, sofreram com os ataques da maçonaria local, de que resultou a tentativa de explosão de seu convento com uma bomba, como narra Mons. Ricardo Domingos Liberali, em seu livro Togno Brusafrati (1981).

Em Antônio Prado, Pe. Carmine Fasulo, nomeado cura em 2.5.1893 e pároco em 31.5.1900, retirou-se para Caxias em março de 1904, em conseqüência de uma luta religiosa. Antes disto, segundo informações orais, teria ficado algum tempo omisiado em casas de colonos.

Na colônia Jaguari, Pe. Ottavio Cattaneo, provisionado a 12.10.1889, teve que fugir várias vezes para o interior da paróquia, para fugir à perseguição dos carbonários e anti-clericais.

Poderíamos percorrer outras paróquias e encontraríamos, na maior parte delas, mesmo no início do corrente século, a reação dos anti-clericais à ação do Clero (Informações completas sobre os sacerdotes citados se encontram em Rubert, Arlindo, Pe. O Clero Secular Italiano no Rio Grande do Sul: 1815-1930).

Pela documentação primária pode-se falar nas intenções e preocupações pastorais dos primeiros párocos das colônias italianas. Fossem encontráveis discursos seus, poder-se-ia falar nas idéias pastorais veiculadas. Mesmo assim são possíveis algumas

Conclusões

1. O imigrante italiano vinha para resolver problemas de ordem econômica, que resultavam também em problemas de ordem familiar. Sua decepção perante a diversidade da realidade imaginada com o do dia-a-dia fez com que entrasse em forte depressão e decepção. Os sacerdotes que espontaneamente vieram com ele, também ficaram chocados com a situação material do imigrante, com poucas condições culturais, jogado numa gleba rural, a ser organizada desde a moradia, a lavoura, a estrada, sem falar na capela, escola... Tal situação foi a razão porque os sacerdotes se voltaram logo à questão material do imigrante, procurando minorar seus sofrimentos e decepções, levando-o a se organizar pelo trabalho, para constituição de uma digna família.

2. Os sacerdotes logo também tiveram em vista o bem espiritual do imigrante colono, habituado à freqüência sacramental, o que não lhe era dado aqui, razão porque muitos se queixam em correspondências: "Qua se morre come le bèstie, sensa prete, sensa confession e sensa comunion." Havia, seja no imigrante, como no sacerdote, o conceito claro da necessidade da confissão e da comunhão para garantia de salvação. De nada adiantaria ao colono ter terra, se não tiver saúde para trabalhá-la, como não adiantaria conseguir o progresso material, sem ter a certeza de salvar a própria alma. Saúde e salvação andavam no mesmo nível de valores, um para o mundo presente e outro, para o mundo futuro. No Primeiro Livro de registros de casamentos de Fazenda Souza, que começa em 12.9.1912 e vai até 26.9.1953, dos 114 óbitos, de 60 se diz expressamente que faleceram sacramentados, ou tendo recebido a unção dos enfermos, ou tendo recebido todos os sacramentos; de 30 não se diz nada, mas da maior parte deles se diz que o enterro foi acompanhado pelo padre; de 24 se diz que não receberam os sacramentos por terem falecido repentinamente ou por terem falecido ao nascer, ou por terem tido morte trágica. A conotação de assistência religiosa é importante. Os anúncios de falecimento em jornal, especialmente no Correio Riograndense, sempre expressam se os falecidos foram atendidos religiosamente.

3. A organização das comunidades de capelas assemelhava-se ao sistema de distribuição de terras em pequenas propriedades, e facilitava o contato do padre com todos os colonos, mediante avisos dirigidos ao presidente ou algum dos frabriqueiros, o que não acontecia nas áreas do interior, onde a igreja não estivesse organizada em pequenas comunidades, como na área de colonização italiana.

Frei Bruno de Gillonnay, diretor da Missão dos Capuchinhos Franceses no Rio Grande do Sul, ao dirigir-se a Dom Giovanni Battista Scalabrini, enfatiza o sistema de colonização: "Este sistema de colonização, em pequena propriedade, favorece também, admiravelmente, a independência e a nobreza de caráter, a pureza dos costumes e a conservação e o desenvolvimento da família cristã." Independência e nobreza de caráter se refere à situação de autonomia econômica e familiar, ao contrário da situação na Itália, onde o colono estava sujeito ao arbítrio de patrões, nem sempre escrupulosos (Apremont/Gillonnay, 1976, p. 245).

A capela, organizada com programa religioso dominical, foi a base de iniciativa e autonomia religiosa, distribuindo atividades entre padres ordenados, com presença esporádica, e padres leigos sempre presentes como coordenadores das atividades religiosas das capelas. Propiciou o senso de responsabilidade e participação entre os leigos.

4. A catequese, com o ensino do catecismo em perguntas e respostas, compilado por Roberto Belarmino no século XVI (Santos, 1979, p. 30), na redação italiana, cujas traduções começaram a circular somente após 1930 (Battistel, 1981, p. 60), feita inicialmente por pessoas práticas, em suas casas, passou a ser feita na capela, para os filhos dos sócios que se preparavam à primeira eucaristia, ou para aqueles que faziam a catequese hoje dita de perseverança. Esta catequese garantia o conhecimento decorado das verdades principais da fé e tornava-se a base comum para entender a linguagem e assimilar os valores cristãos. A análise social que hoje se mostra à criança não precisava ser feita, não porque não estivesse na mentalidade da época, mas porque o associativismo com que se formaram as comunidades de capelas e pela qual os primeiros imigrantes se organizaram em suas casas, fazia parte da vivência quotidiana.

Ajudar o vizinho necessitado era tão importante quanto levar à frente as atividades da própria família. Nem passaria pela cabeça de uma comunidade rural de capela, ainda hoje, ficar indiferente a alguém que perdeu os pais, ainda criança, ou à desgraça por incêndio ou vendaval que destruiu alguma casa. Na visão de hoje, porém, percebe-se que este espírito continua vivo, embora um pouco voltado ao próprio grupo, criando dificuldades para entender os necessitados e pobres de outros ambientes culturais e com outros antecedentes, como os agricultores sem terra, por exemplo.

5. Na linha do relacionamento do homem com Deus, havia a idéia clara de que Deus é criador, pai e providência, cabendo ao homem a obediência filial e a subordinação. Deus sempre sabe o que faz, razão porque o cristão não blasfema, nem se revolta contra Deus. O que acontece, acontece com o conhecimento e o beneplácito de Deus. Donde a incoerência da revolta e da blasfêmia, que se opõem diretamente a Deus que, como pai, oferece a salvação, são algumas idéias presentes nos fragmentos da pregação da época (Caxias, 1978, p. 23-37).

Enfim, a organização das colônias italianas em pequenas propriedades como famílias, e em capelas como comunidades de fé e de culto, foram elementos importantes para a não diluição cultural dos grupos, para o contato programado com o sacerdote e a igreja, e para o cultivo da fé a partir de práticas em comunidade, como o terço, a oração pelos mortos, bem como a reza do terço em família. Comunidade e corresponsabilidade estiveram presentes nas capelas, inicialmente como grupos essencialmente religiosos, ou iluminando tudo com a luz da fé, que precisam retornar ao mesmo espírito originário, hoje, quando a ganância, a ostentação, o lucro fazem das capelas comunidades sociais, recreativas, de base econômica e consumista, do que propriamente comunidades religiosas, como o foram em sua origem (Galiotto, 1987, p. 295-312).

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